A história do Sul da Bahia está repleta de eventos beligerantes. Do século XVI, após a chegada dos colonizadores portugueses, até o século XX, período das duas maiores guerras da história humana, uma série de conflitos foram travados no território do Sul da Bahia ou o atingiram de alguma forma. Esses eventos moldaram o processo de desenvolvimento histórico das pessoas que aqui viveram, mas a maioria deles são desconhecidos dos historiadores e das pessoas em geral.
A História Militar do Sul da Bahia
Como apontou o historiador Ian Morris (2015), a História Militar tem como objetivo fornecer um panorama mais abrangente da guerra como fenômeno e de tudo que a envolve. A guerra, nesse sentido, não é entendida somente como o enfrentamento direto entre forças militares mas, também, os seus impactos indiretos que ela causa sobre as sociedades (nas relações econômicas, políticas, sociais e culturais). Nesse sentido, o estudo da História Militar é um campo rico em possibilidades investigativas. A História Militar do Sul da Bahia só começou a ser estudada recentemente. Tudo começou com uma pesquisa que visava reconstituir a história do antigo campo de aviação do Arraial d’Ajuda. A pesquisa, executada por Galileu Lemos Jr., Gabriel Moreira Dias, Rafael Tosati, Tharles S. Silva e Vinícius Parracho, deu origem ao livro “Asas para Porto Seguro”. Em 2016, durante uma entrevista com o senhor Benedito Ramos Cassimiro, surgiram informações sobre espionagem e ataques de submarinos a embarcações mercantes, ocorridas na região no chamado “tempo da guerra”. As informações aludiam à Segunda Guerra Mundial. A partir daquele momento, os pesquisadores envolvidos no projeto passaram a procurar fontes sobre o tema e um dos capítulos do livro “Asas para Porto Seguro” apresentou os impactos da guerra no município de Porto Seguro. Mais recentemente, um tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade, da Universidade Federal do Sul da Bahia, abordou os impactos da guerra sobre toda a região.
Acesse estudos sobre a temática:
“(…) tinha uma mulher que vinha com submarino, fazendo contato com um cara dela lá em Santa Cruz Cabrália. Depois foi que descobriu. Não sei se deram um fim nela. Não sei! Negócio da guerra, sabe?! Um submarino e tal, e fazia isso”. (Benedito Ramos Cassimiro)
“A guerra é sempre uma expressão de cultura, com frequência um determinante de formas culturais e, em algumas sociedades, é a própria cultura”. (John Keegan)
A Segunda Guerra Mundial no Sul da Bahia
A Segunda Guerra Mundial impactou profundamente o Sul da Bahia. O conflito era acompanhado pela população local desde o seu início, em 1939, por meio de matérias publicadas no jornal “Boletim Oficial Município de Belmonte”. Contudo, após o ataque ao navio Afonso Pena, ocorrido em março de 1943, ao largo da costa de Porto Seguro, a guerra deixou de ser percebida como notícias de eventos distantes e se tranformou em uma tragédia que afetava o cotidiano das pessoas da região. Após o ataque, realizado pelo Barbarigo, um submarino italiano, unidades militares provenientes de quartéis de Minas Gerais foram enviadas para guarnecer os principais centros urbanos da região, Belmonte, Porto Seguro e Caravelas, a partir dos quais executavam patrulhas sobre todo o litoral regional. A convivência com os militares fez com que a população da região vivesse um intenso contexto de guerra.
Um dos principais aspectos do conflito na região foi a perseguição a estrangeiros que aqui viviam. Uma suíça em Belmonte, um alemão em Prado, um português em Porto Seguro e sete italianos em Santa Cruz Cabrália foram vitimas de perseguições por parte da população regional e dos “soldados mineiros”. Outro aspecto importante foi a convocação de dezenas de homens da região para o serviço militar, entre 1943 e 1945, dos quais pelo menos cinco combateram na Itália, entre 1944 e 1945, como integrantes da Força Expedicionária Brasileira. Após a guerra, as dificuldades de subsistência, a convivência com os soldados e com os estrangeiros e soldados convocados localmente se transformaram nos pilares sobre os quais foram construídas as memórias da Segunda Guerra Mundial no Sul da Bahia.
“A história da Segunda Guerra Mundial no Brasil “tem sido marcada muito mais pela ausência do que por uma presença efetiva e consistente”. (Roney Cytrynowicz)
“Qualquer história da Segunda Guerra Mundial é, portanto, a história do mundo entre 1939 e 1945”. (John Keegan)
“Não adiantou, nós vencemos”. (Elias Siquara)
Uma história por se construir
A História Militar do Sul da Bahia é um campo em construção. Uma das grandes dificuldades para isso é a disponibilidade de fontes. A falta de arquivos públicos na região dificulta a preservação de fontes, não só para o estudo da História Militar, mas para o estudo da história de forma geral. Foi pensando nisso que a Coleção Temática Memórias de Guerra foi idealizada. Seu objetivo é disponibilizar fontes que possibilitem o desenvolvimento de pesquisas no âmbito da História Militar sobre o Sul da Bahia.
Considerações finais
O estudo do fenômeno da guerra permite entender questões que vão além das ações bélicas propriamente ditas. As pesquisas sobre a História Militar do Sul da Bahia tem revelado estratégias de reforço de sociabilidade entre as pessoas, estratégias políticas de manutenção da ordem interna, a forma como os diversos grupos sociais interagem em contextos de beligerâncias. Mais que isso, o estudo da História Militar do Sul da Bahia pode ajudar a ampliar a compreensão da história brasileira de forma geral.
A tarefa não é fácil, mas é possível. Aos poucos, novas fontes estão sendo disponibilizadas, muitas delas provenientes de acervos de diversas partes do Brasil mas, também, de acervos de diversas famílias da região. Aos poucos, novos estudos estão sendo produzidos e, espera-se, que muito em breve a História Militar do Sul da Bahia se consolide como um campo de pesquisa entre os historiadores e demais pesquisadores da região.
Referências:
CASSIMIRO, Benedito Ramos Cassimiro. Entrevista concedida a Galileu Lemos Jr., Gabriel Moreira Dias, Tharles S. Silva e Vinícius Parracho. Arraial d’Ajuda (Porto Seguro), dez. 2016.
CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial, 2002.
KEEGAN. A batalha e a história: revivendo a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2006.
KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MORRIS, Ian. Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade. São Paulo: LeYa, 2015.
SIQUARA, Elias. Entrevista concedida a Tharles S. Silva. Caravelas, 7 de jan. 2019.Tharles S. (org.). Asas para Porto Seguro: histórias e memórias do antigo campo de aviação do Arraial d’Ajuda. Jundiaí: Paco Editorial, 2019.
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