Coleção Digital Pataxó

A Coleção

Não obstante o crescimento do número de estudos e ampliação de número de universidades e programas de pós-graduação nos últimos anos, ainda há poucos trabalhos com pesquisa de fôlego sobre o atual Extremo Sul da Bahia. Mencionada sempre a partir de uma visão pessimista ressaltou-se a sua condição histórica de pobreza, estagnação e, portanto, de pouco interesse para os estudiosos. Com uma experiência histórica que não se enquadra nos padrões de prosperidade em comparação com regiões de maior produção de riqueza, as possíveis dificuldades de enquadramento a puseram numa condição de grande esquecimento.  

 

Legenda da foto

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Associado a isso, a difusão da ideia de inexistência documental ajudou a desinteressar os historiadores a desenvolverem pesquisas sobre a região. Longe de afirmarmos que há uma facilidade de acesso a fontes, é importante lembrar que existem possibilidades. Apesar da dispersão e estado de conservação, um pouco de insistência e cuidado revelam possibilidades interessantes de trabalho. A busca em vários arquivos, o uso de fontes diversas e um bom cruzamento de informações entre diversos documentos são fundamentais.

Outro fator muito importante é a agência indígena na região. Ao longo de toda a sua existência, a dinâmica das populações nativas que ocupavam aquele território influenciou e ainda influencia a sua história. No presente, os obstáculos em acessar informações de personagens que ao longo de séculos tiveram suas vozes silenciadas, certamente, é mais uma barreira.

Em tese de 2001, John Monteiro chamou atenção para a dificuldade na produção de trabalhos sobre a história das populações nativas da América portuguesa. A raridade de escritos e demais fontes produzidas pelos índios torna a escrita da história indígena um desafio.

Ademais, as primeiras impressões deixadas por cronistas e posteriormente por intelectuais e estadistas do século XIX possuem umconteúdo pessimista pautado na ideia de sumiço dos índios da história a partir do contato com os europeus.Tais ideias conformaram entre os historiadores brasileiros um desinteresse quase generalizado pela temática indígena sendo esta assumida, em grande medida, pelos antropólogos. Para o pesquisador, ainda sobrevivem entre os historiadores brasileiros duas noções construídas nesse processo:

A primeira diz respeito a exclusão dos índios enquanto legítimos atores históricos: são, antes, do domínio da antropologia, mesmo porque a grande maioria dos historiadores considera que não possui as ferramentas analíticas para se chegar nesses povos ágrafos que, portanto, se mostram pouco visíveis enquanto sujeitos históricos. A segunda noção é mais problemática ainda, por tratar os povos indígenas como populações em vias de desaparecimento.

Essa situação só mudaria a partir do final da década de 1970, implicando em “duas inovações importantes, uma prática e outra, teórica”. Então, “surgiu de fato, uma nova vertente de estudos que buscava unir as preocupações teóricas referentes a relação história/antropologia com as demandas cada vez mais militantes de um emergente movimento indígena”. Assim, a antropologia até então muito influenciada por estudos estruturalistas baseados em análises mais cristalizadas, de perfis que se enquadram em grandes estruturas, passa a incorporar influencias de trabalhos pós-estruturalistas.
Assim, a etnologia brasileira passava a integrar a seus repertórios as discussões pós-estruturalistas de autores como Renato Rosaldo e Marshall Sahlins, entre outros, cujas abordagens davam um papel dinâmico para a história na discussão das culturas, das identidades e das políticas indígenas.

O trabalho assentado sob essas bases buscava reverter a ideia de que o contato de índios e europeus representou, necessariamente, o extermínio histórico e cultural indígena. Passou-se a considerar cultura como processo histórico, valorizando a historicidade da cultura na qual os processos históricos figuram como elementos explicativos e transformadores das culturas dos povos. Na história, a influência da história social inglesa e as contribuições de E. P. Thompson foram importantes. Nesse contexto Thompson associa cultura e classe como processo, formados pela experiência. Nesse sentido, para Thompson, cultura é um produto histórico e dinâmico forjada no processo histórico das experiências e condicionamentos que os sujeitos são submetidos.

Esse olhar para a cultura descortina possibilidades de análise que objetivam diminuir a relação de oposição entre aculturação e resistência permitindo analisar estratégias de sobrevivência a partir da reelaboração de identidades e costumes.

As identidades, a partir dessas reflexões, não mais são consideradas como algo paralisado e um elemento inato dos sujeitos. Do contrário, “permanece sempre incompleta, está sempre ‘em processo’, sempre ‘sendo formada’”. Temos então identidades múltiplas e, respeitando a complexidade humana, os contextos mudam e as identidades se reconfiguram a partir de sua influência.

Este espaço, colaborativo e em construção permanente, tem como finalidade reunir, conservar e democratizar o acesso de documentação variada e dispersa em vários arquivos, fundos e coleções no Brasil e no exterior referente aos diversos povos indígenas do território em que insere o atual Extremo Sul da Bahia em uma plataforma de fácil acesso.

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O recorte com enfoque mais territorial do que propriamente temático e étnico tem como justificativa a possibilidade de alargar o campo de percepção e potencial de análise da trajetória de diversos grupos que não somente interagiu com variados contextos, mas se deslocaram por um vasto território. Assim, inicialmente, os arquivos serão organizados atendendo a dimensão espacial e temporal reunindo documentos da região em destaque organizados a partir de seções que atendam a periodização clássica da historiografia vigente (pré-colonial, colonial, imperial e republicano) podendo ser ajustada à medida em que o banco de dados for se desenvolvendo.

Curadoria

Oiti

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